Ultra Trail da Serra da Freita – 65km

Peregrinação

O Ultra Trail da Serra da Freita é algo que todos deviam fazer pelo menos uma vez na vida. Devia ser uma obrigação, como ir a Meca é para os Muçulmanos.

Não sou particularmente religioso, mas se fosse diria que Deus criou a Serra da Freita num dia em que se estava a sentir particularmente maroto. É uma serra que tem tanto de bela como de dura, com muito para ver e descobrir mas é necessário um grande esforço para chegar à maioria dos locais.

Por vezes não temos a percepção de como se vivia até à algum tempo. Hoje temos estradas e carros, mas a verdade é que durante este fim de semana passei em aldeias (algumas abandonadas e outras povoadas) situadas em sítios completamente inacessíveis. E algumas embora não fiquem muito longe umas das outras, o que está pelo meio torna a viagem uma tarefa quase hercúlea, especialmente porque presumo que na altura não houvesse estradas, apenas carreiros.

No dia depois da prova, a passear pela região com amigos, descobri que ainda há pessoas vivas em Ovar que trabalharam nas minas de Regoufe. E todos os sábados à noite iam a pé de Regoufe a Ovar para ver a família e para regressar a Regoufe domingo à noite. Cerca de 120km, em 48 horas a que se seguiam 6 dias de trabalho numa mina.

ovar-regoufe

Partida

Não sei a que horas cheguei à linha de partida, estava nervoso, “doía-me” o gémeo. Estava com dois amigos que deviam ser canonizados. O Cristiano que coitado, teve de me aturar 14 horas e com o Alexandre que foi para nos dar apoio e passou o dia seguinte a serpentear por estradas e a secar em abastecimentos. Levava a t-shirt dos Run4Children e estava com medo de não conseguir concluir a prova.

Antes da partida encontrei algumas caras conhecidas, e ainda tive o privilégio de cumprimentar o grande dinamizador do UTSF e pai da primeira prova de Trail em Portugal, o José Moutinho.

Eram 07 horas quando foi dado o tiro de partida, e lá seguimos nós pela encosta acima para a primeira etapa, de 9km com 900 e tal metros de desnível positivo, desde Arouca ao planalto da Freita.

Eu, o Alexandre e o Cristiano.

Eu, o Alexandre e o Cristiano.

Não sei se o caminho era diferente do caminho que fiz no ano passado na prova curta, ou se apenas me pareceu mais lixado, mas lá fui.
A humidade era tanta que tive de tirar os óculos que estavam sempre a embaciar.

Aos 7km, numa quinta abandonada, apareceram umas escadinhas e no topo estavam os primeiros fotógrafos e o Moutinho a bater palmas e a puxar pelos atletas. Ao continuar a ouvir a sua voz umas centenas de metros à frente tive a primeira vez percepção do silencio que me envolvia.

Um pouco mais acima, desapareceu a humidade e apareceu o sol abrasador que me acompanhou ao longo do dia.
Olhei para o lado e vi Arouca envolta em nevoeiro, a primeira de muitas visões que tive ao longo do dia, que mesmo que fosse para tê-las individualmente valeriam todo o esforço que fiz.

A Freita

Chegamos às eólicas onde estava a funcionar o primeiro abastecimento. E entre as eólicas e Tebilhão foi sempre a “rolar”.

Não sei se se pode considerar aquilo que fiz rolar, já que o caminho – no topo descoberto de uma montanha – parecia evitar os estradões, era por entre pedras e carreiros e eu, não estou ainda muito confortável neste tipo de piso, sendo que, só passávamos em estradão, para atravessar de um carreiro para outro.

Mesmo assim seguíamos todos em pelotão e em silêncio. Normalmente nas provas de trail, ao fim de uns kms, vou sempre sozinho. Aqui, apesar de não sermos muitos, nesta primeira parte seguíamos todos em silêncio, atentos aos obstáculos que nos apareciam pela frente.

Descemos um pouco, e fui brindado pelo primeiro ribeiro, onde mergulhei os gémeos “doridos” (devia ser a ansiedade – quando me esqueci que me doía, a dor passou), bebi da água, e tirei o Buff da mala para molhar a cabeça com ele. E de cabeça fresca lá segui.

Entramos num trilho ao longo de um canal até Tebilhão, de vez em quando, em vez de ir pelo bordo ia pelo interior do canal. Andar a molhar os pés estava a dar-me um prazer enorme, senti-me uma criança.

Em Tebilhão o Alexandre esperava por nós, sorridente, reabastecemos, hidratamos e lá seguimos caminho.

Dura Freita Sed Freita

Para mim foi aqui que a prova começou. Sob um sol abrasador fomos até Candal (que já é em São Pedro do Sul, no Distrito de Viseu, sendo que Arouca é no Distrito de Aveiro).
Voltamos a passar por um ribeiro, e o meu ânimo regressou, e sentia-me bem. Antes de entrar no Trilho da Besta conversava com outro atleta, que me dizia que ia tomar um gel para ganhar forças para a Besta, eu, feito idiota respondi-lhe que a partir do 10ºkm para mim era sempre a descontar.

A primeira vez que ouvi falar sobre a besta foi no ano passado, neste vídeo do Ricardo Bomtempo. Vi as fotos e os vídeos, e quando cheguei lá ainda estava convicto que ia demorar menos de uma hora a subir aquilo.
A verdade é que não posso dizer que tenha subido a besta. Rastejei besta acima, demorei cerca de 1h20, tive de tomar o gel que devia ter tomado lá em baixo, bebi a água toda que levava. Fui ultrapassado por outros atletas. Neste post de facebook tentei descrever o que me passou pela cabeça enquanto estava na Besta, no entanto, só estando lá é que se consegue perceber.

No topo do Trilho da Besta estavam os elementos dos GOBS, perguntei-lhes se já tinham tido clientes e disseram-me que não. Tiveram a amabilidade de me dar meio litro de água porque ainda estava a 7km do posto de abastecimento seguinte.

No Caminho de Emaús

Percorremos o resto do caminho até Manhouce, abastecemos, voltamos a subir tudo, para o que foi a minha parte favorita da prova – de Manhouce a Castanheira.
Através de uma descida muito técnica, cheia de terra solta, árvores, lama e ribeiros, por entre o que eu julgo ter sido uma povoação outrora, descemos até uma cascata, onde voltei a ter o prazer de “mergulhar”.

Foto: C.O.

Foto: C.O.

À descida seguiu-se uma subida, sempre pela sombrinha por uns degraus. Nas Escadas do Martírio.
Passou por mim um atleta do AD Bem, que me disse que seriam 800 degraus, respondi-lhe que 800 ainda se faziam bem, o problema seria se fossem 900.

Como devem imaginar, com 40km nas pernas, para um entrevado como eu, qualquer degrau é um problema.

Degrau a degrau subi até à Lomba. Onde no abastecimento havia cerveja e canja. E onde estava fresquinho e estava mesmo bom ambiente.
Parei um pouco no abastecimento e troquei impressões com outros atletas. Entretanto chegou o Pedro Caprichoso do Blog Top Máquina e do EDV-Viana Trail à espera do Jérôme Rodrigues.

Partimos, com um conhecido, e na conversa distraímo-nos no caminho. Felizmente não fomos parar a Fátima ou a qualquer outro destino porque ouvimos assobiar, e quando olhamos para trás vimos que era o Jérôme Rodrigues (que nos tinha acabado de ultrapassar) a chamar, e a indicar o caminho correcto.

O momento exacto em que outra pessoa te dá 35km de avanço é o momento em que te apercebes que deves pendurar as sapatilhas e dedicar-te à pesca.

A Estrada de Damasco

Entramos pelo lado de uma montanha em direcção à aldeia de Castanheira, separei-me do resto dos atletas, e creio que nunca me senti tão livre. Era eu e a montanha, com o ruído de um rio a passar lá em baixo.

Na altura lembrei-me de um episódio da Bíblia – não sou religioso e não pertenço a nenhum tipo de grupo religioso, são apenas coisas que nos vem à cabeça nestes momentos. Jacob, cujos 12 filhos deram origem às doces tribos de Israel, recebeu o nome de Israel quando se preparava para atravessar um rio e lhe apareceu Deus à frente e o obrigou a luar consigo, durante toda a noite até de madrugada. E como Jacob resistiu Deus abençoou-o e deu-lhe o nome de Israel, que significa aquele que luta com Deus e prevalece.

Percorrer aquela distância ali (e a experiência da ultra-maratona) é mais ou menos isso, uma luta com as montanhas e com muitas outras adversidades. Morres e renasces várias vezes.

Enfrentas as montanhas, as forças da natureza, e mais importante de tudo, enfrentas-te a ti próprio.
E quando terminas sais com um novo nome, porque deixas de ser quem eras e a designação anterior que tinhas deixa de fazer sentido.

Foto: C.O.

Foto: C.O.

Entretanto as horas que andava naquilo começaram a pesar, e voltaram a aparecer as minhas amigas assaduras. Voltei a assar em todo o lado, sendo que,a partir daquele momento passei grande parte do tempo a passar creme para as assaduras nas vergonhas e em sítios semelhantes.

Lá continuamos para o Merujal a passo de caracol. Por uma escarpa belíssima onde em alguns momentos dá para ver a Mizarela, a mãe de todas as cascatas.
Creio que apenas no Merujal (ou seja, 10km depois) é que fomos ultrapassados pelo segundo classificado da prova dos 100km.

Depois do abastecimento, voltamos às eólicas e descemos mais ou menos pelo mesmo caminho por onde tínhamos subido. E que passa pela casa de um amigo de longa data, que ainda me acompanhou um pouco a correr e a filmar – e cuja família ficou à minha espera até às 22h para jantar.

Lá continuamos até Arouca, a tentar puxar pelas pernas para correr, que por essa altura já não respondiam, mas que ainda deram para o “sprint” que incluía o escadório da escola.

Despedi-me à pressa dos meus companheiros e lá fui à minha vida.

O Ultra Trail da Serra da Freita

O Ultra Trail da Serra da Freita é o trail da água, das montanhas e acima de tudo do silêncio – até podem haver outras pessoas perto de nós, mas não conseguem falar. Onde há uma verdadeira comunhão com a natureza.

O Ultra Trail da Serra da Freita é uma prova a sério com uma organização a sério.
Não consigo imaginar as horas e o esforço que levou a preparar, a marcar e a montar aquilo.
Muitos dos sítios até são perto a pé, mas por caminhos tormentosos, e são longe uns dos outros de carro. É que não me lembro de ter falhado mesmo nada, nem uma fita (perdi-me, mas foi porque ia na conversa).

Fica o meu agradecimento e os meus parabéns ao José Moutinho, à Flor Madureira (que não tive oportunidade de cumprimentar), José Carlos Madureira e aos outros elementos da Confraria Trotamontes. Para o ano volto, não sei bem para que distância mas volto.

O meu agradecimento ao Albano, Celsa, Bashar Al-Assad e família, pelo fim-de-semana espectacular – ainda fui com eles e outros amigo dar uma volta pela Freita, onde passamos pelo Portal do Inferno, e onde deu para ter alguma ideia da zona por onde passam os 100km.

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