Inatel Piódão Trail Running 2016

Sopé

Por vezes para dar um passo em frente é necessário dar dois passos atrás.

No ano passado fiz algumas maratonas de estrada (3), ultra-maratonas nos trilhos (3) e uma prova de 24h que não sei bem como classificar, a experiência na generalidade foi agradável. Acabei no entanto o ano um pouco cansado e desgastado, porque concentrei as corridas maiores nos últimos 4 meses do ano.
Para além disso, este ano já tinha decidido que o foco seria o aumento da velocidade e não da distância. Até porque, gostava de me aventurar nos 3 dígitos, mas à minha velocidade dificilmente seria capaz de terminar uma prova no tempo regulamentar.

Assim, e enquanto vou tratando disto da velocidade vou participando nas provas mais curtas. Ou seja, no Inatel Piódão Trail Running fui à prova de 21 km em vez da de 50 km.

Não digo que pontualmente não abra excepções e faça uma distância maiorzita, para matar o vício, mas para já não é esse o objectivo.

Vertente

Os dias que precederam o o Trail foram marcados por duvidas em relação ao clima. Havia nevado na semana anterior e no dia antes a organização colocou um post no Facebook da prova a dizer que os atletas deveriam levar o material suplementar já que se previa mau tempo para o dia da prova.

Enquanto eu pensava se não seria mais prudente desistir antes de partir, gerou-se ali uma altercação engraçada entre os participantes e a organização, sendo que a organização chegou a referir que devíamos ir todos nus porque acabaríamos por voltar para trás mais rápido.

As duvidas dissiparam-se quando as referi à pessoa que ia comigo (o Hugues), que simplesmente se riu.

Assim, às 06h da manhã, encontramos-nos em Aveiro, fomos tomar o pequeno almoço a um café que naquela altura estava cheio de pessoas que tinham acabado de sair da discoteca local. E lançamos-nos à estrada em direcção ao Piódão.

Fomos até ao Luso, apanhamos uma IP3 envolta em nevoeiro, e já na IC6 subimos de altitude e deixamos o nevoeiro para baixo. Saímos na saída de Coja e fomos até ao Píodão.

Achei a zona montanhosa da Serra do Açor de uma beleza indescritível, aldeias e socalcos para a agricultura espaçadamente entre a natureza servida a cru, com uma vegetação muito variada, com arbustos e árvores de vários portes (creio que vi giestas, loureiros, castanheiros, carvalhos, rosmaninhos – tenho pena de ter visto pinheiros, especialmente com o casulo das lagartas por cima).
Sem duvida uma região a explorar melhor.

Inatel Piódão Ultra Trail

Encosta

A descida para a Aldeia do Piódão sem duvida também é maravilhosa, com a igreja branca a dominar a paisagem, a montanha por trás, e bem lá ao fundo à esquerda a Serra da Estrela.
Foi fácil localizar logo o Inatel, e pela quantidade de carros estacionados, deu para perceber que dificilmente daria para fazer o evento com mais do que os 750 participantes.

Fomos levantar o dorsal, onde pela primeira vez – e muito bem – me pediram o BI. Informaram-nos que a prova partia às 10h15, fomos tomar café e aproveitamos a hora que ainda faltava para ir ao carro vestir o equipamento.

Como estava frio, para além dos calções, optei por vestir uma t-shirt interior justa, a t-shirt normal, os manguitos e as luvas.

Vagarosamente fomos para a linha de partida, quando lá chegamos às 10h percebemos que afinal a partida era às 10h e não ás 10h15 como nos tinham dito na entrega dos dorsais… E para variar partimos do fim (começa a tornar-se um habito para mim).

Na descida para a entrada da aldeia do Piódão, era numas escadas, e começou logo a criar fila. Eu não me fiz de rogado e passei ao lado. Passamos a aldeia e lá fomos avançando a um bom ritmo – pelo menos para mim.

Em Chãs d’Égua não consegui aguentar, já estava ensopado em suor e a morrer de calor, e tive de parar para fazer strip-tease (tirar a t-shirt que tinha por baixo), parei também muito tempo num abastecimento que havia uns metros à frente, para me hidratar convenientemente (estava a suar como um cavalo).
A sensação de calor foi substituída por uma sensação de frio, por estar ali exposto ao vento, com a roupa molhada. Mas isso ficou para trás quando voltamos ao percurso e começamos a zigue-zaguear encosta acima.

Foto: Nuno Faria | WIldest Moments

Foto: Nuno Faria | Wildest Moments

Em 4 km subimos dos 750 m de altitude para os 1200, numa estrada de terra batida aos zigue-zagues. Gostava de ter conseguido subir a um ligeiro trote, mas não fui capaz, não sei se era por causa da inclinação ou se seria da altitude.

Entretanto em algumas partes voltou o frio, provocado pelo vento, e quase lá em cima até tive de voltar a comer – normalmente, nas ultimas corridas apenas tenho usado os pontos de abastecimento – estava mesmo cansado.

Atingido o Cume, foi sempre a rolar (e a descer) uns 6 km até Malhada Chã. Acho que esta também foi a parte mais bonita do percurso. Em Malhada Chã – onde o percurso se separava do dos 50km – esperava-nos um belo abastecimento, com bifanas.

E nós bem que precisamos dele, já que voltaríamos a subir, desta vez dos 850m até aos 1300 em 3 km. Foi uma subida tortuosa, porque já estava cansado, e a parte final era lixada, um curso natural de água, seco, cheio de rocha solta e extremamente inclinado.
Completa-lo demorou uma eternidade, mas do topo já se via a meta e voltou o animo.

Ao topo seguiu-se um abastecimento e uma descida horrível. À conta dela – e do facto que eu não treino suficiente descidas – andei vários dias com um andar estranho. Muito inclinada e tinha de estar sempre a fazer esforço para segurar o corpo.

Voltamos a passar na aldeia de Piódão, onde fui apanhado por um fotografo com cara de mau a dizer a um residente que fumar mata, e lá foi a ultima subida até ao Inatel (ao fim de cerca de 03h10).

No final recebi o prémio de finisher – uma colher de pau – e socializei um pouco com os outros participantes. Seguiu-se um banho de água gelada num chuveiro improvisado, daqueles da entrada da piscina, separado do resto do espaço por um vidro baço. Só não foi nudismo porque estava de meias.
O banho frio foi a recompensa por me ter armado em esperto, havia fila na água quente, e eu queria despachar-me.

Foto: Mário J. Ferreira

Foto: Mário J. Ferreira

Cume

Deve ter sido das poucas vezes em que cheguei à meta numa prova curta, antes da chegada do primeiro classificado da prova maior – tive oportunidade de ver o André Rodrigues no sprint final. Também foi das poucas vezes em que fiquei no meio da tabela (126 dos 250).

Diverti-me imenso. Deu para ver algumas caras conhecidas, travar conhecimento com caras desconhecidas – incluindo conterrâneos. Alias, fiquei tão motivado que no dia seguinte fiz uma tontice que já vos conto a seguir.

Gostei imenso da prova, espero repeti-la (provavelmente na versão maior), e espero correr mais vezes naquela serra. No entanto acho que a organização deveria repensar melhor a forma como remete os avisos aos participantes (penso que um email seria mais adequado do que o facebook), como lhes comunica a informação (foram pouco claros, disseram que a info era para a prova dos 50 e dos 21km, e afinal era só para os 50), e deviam seriamente repensar a forma respondem aos participantes.

Compreendo o complicado que é a logística dos banhos, a instalação não tem espaço para tanta gente. E de uma ou outra coisa que tenho a certeza que para o ano funcionará melhor, como o último abastecimento.

Mas friso que a minha avaliação global do evento é muito mais que positiva.

Ficam os meus agradecimentos ao Hugues pela companhia nesta epopeia, ao Mário pelas fotos e pela motivação, aos voluntários da organização (que como sempre estiveram 5 estrelas) e aos fotógrafos [Faz Tletismo, Nuno Faria, Mario J Ferreira, Carlos Pereira] (é preciso mesmo carolice).

A malta do Correr São Bernardo sem dúvida é a mais fixe. :P

A malta do Correr São Bernardo sem dúvida é a mais fixe. 😛

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